Brasil precisa de 178 mil bibliotecários

Brasil precisa de 178 mil bibliotecários
Universidade Federal da Paraíba (UFPB) oferece 90 vagas anuais para o curso de biblioteconomia

Aline Guedes
 
É lei: até 2020, toda escola brasileira deverá possuir uma biblioteca, conforme o decreto publicado ano passado no Diário Oficial da União. Isso significa que o País tem apenas nove anos para suprir uma lacuna de 178 mil bibliotecários. Com um futuro de ofertas de trabalho praticamente garantido, o curso de biblioteconomia pode se tornar em alguns anos o queridinho dentre aqueles que priorizam a empregabilidade fácil após a graduação.

A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) oferece 90 vagas anuais para o curso de biblioteconomia. Um dos mais cotados na lista de segunda opção entre os candidatos que prestam vestibular para a instituição, a habilitação tem concorrência relativamente baixa – foram 3,3 candidatos por vaga, na última edição do certame.

“A maioria dos alunos não escolhe o curso como primeira preferência, mas no decorrer das aulas, eles se identificam com os assuntos estudados e a paixão pela biblioteconomia aflora”, afirma a estudante do terceiro período, Ana Virgínia, de 45 anos.

De acordo com a coordenadora do curso, Jemima Marques de Oliveira, a habilitação em biblioteconomia da UFPB passou recentemente por uma renovação na grade curricular, o que permitiu uma queda na evasão dos discentes. “A antiga composição curricular exigia que o aluno tivesse concluído algumas matérias para estar apto para cursar outras. Porém, com o novo currículo, que já se encontra em seu sétimo período de oferta, esse problema foi bastante minorado e observamos que os alunos têm acompanhado suas turmas com baixos índices de evasão ou repetência”, disse.

Currículo traz seis áreas

O currículo reformado se distribui em seis áreas curriculares, ou áreas do conhecimento: fundamentos teóricos da ciência da informação, organização e tratamento, recursos e serviços, gestão de unidades de informação, tecnologia da informação e pesquisa. O curso pode ser concluído em, no mínimo, dez períodos, ou seja, cinco anos. Cerca de 40 a 50 alunos de biblioteconomia se graduam por ano na UFPB.

O aluno que escolhe a biblioteconomia deve ser comunicativo e se interessar por pesquisa e organização, sem contar no apego à leitura. “Além de ser leitor, o aluno deve ser pró-ativo e gostar de atender necessidades informacionais dos usuários em todos os níveis, com bom diálogo. Como profissional responsável pela organização, recuperação e disseminação da informação em todos os suportes e áreas do conhecimento, aliando o acesso local e remoto, o bibliotecário é um agente social que atua na democratização da informação contribuindo para a ampliação do espaço de construção do conhecimento individual e coletivo”, explicou a coordenadora Jemima Marques.

Ao final do curso, o bibliotecário vai trabalhar com: geração, análise, controle, acesso, consultoria e utilização da informação; gerenciamento de unidades de dados de qualquer natureza; e tecnologias para o incremento do uso das informações.

Profissionais buscam valorização

Em maio de 2010, a promulgação da lei 1.244/2010 renovou os ânimos dos alunos e profissionais da área. O decreto determina que todas as escolas brasileiras serão obrigadas a ter uma biblioteca, sejam elas particulares ou públicas. O acervo deverá ter, no mínimo, um título diferente por aluno matriculado e as instituições de ensino têm até o ano de 2020 para se adaptar.

A lei, aparentemente simples, pode incitar uma revolução no sistema de ensino superior brasileiro e no prestígio do trabalho do bibliotecário. Isso porque para se adequar à nova norma, em nove anos, o País terá que formar oito vezes mais bibliotecários. De acordo com dados de 2010 do movimento Todos pela Educação, existem no Brasil 21,6 mil profissionais habilitados e 200 mil escolas de educação básica. Os cálculos apontam que faltam 178,4 mil bibliotecários para preencher as vagas que devem ser abertas neste futuro próximo.

Enquanto 2020 não chega, os profissionais batalham pelo reconhecimento salarial. “O bibliotecário é um profissional liberal, e pelo decreto 56.725 de 1965, a base salarial deveria ser de 10 salários mínimos. Infelizmente, o desconhecimento da atividade desse profissional, a falta histórica de investimentos no Brasil em bibliotecas e centros de informação, além dos baixos salários em geral, faz com que o trabalho do bibliotecário não seja remunerado como deveria. Esse é um quadro que esperamos que venha a mudar com as novas políticas de valorização da informação e das unidades de informação”, disse a professora Jemima Marques.

Dinâmica

A professora Jemima Marques assegura que o curso de biblioteconomia não é difícil, mas empenho e interesse do estudante são imprescindíveis para que ele não fique pelo caminho.

A dinâmica de estudos do curso é dividida em duas partes: conteúdos básicos profissionais e conteúdos complementares.

A primeira compreende disciplinas que desenvolvem análises de natureza epistemológica, histórico-social e conceitual, essenciais para o desenvolvimento de competências e habilidades requeridas para os egressos do curso. Os conteúdos básicos profissionais são estudados também com estágio supervisionado.

Já a segunda fase do curso conta com matérias de metodologia científica e pesquisa aplicada, além de projetos de ensino, pesquisa e de extensão, correspondentes a no máximo 20% da carga horária total.

Mercado em expansão na Paraíba

Na Paraíba, o mercado está em expansão com a abertura de novas faculdades e escolas. Os bibliotecários são, em sua maioria, absorvidos nas instituições de educação superior - públicas e privadas - e nas empresas que utilizam a tecnologia como vetor para conectar pessoas, organizações, documentos e informações.

A bibliotecária Núbia Lima, graduada pela UFPB há menos de um ano, conta que teve que mudar de cidade para se realizar financeiramente no seu trabalho. “Depois que me formei, notei que algumas instituições pagavam salários baixíssimos para os bibliotecários. Consegui uma oportunidade de emprego em Campina Grande, em uma faculdade que felizmente pagava o valor compatível com a média da base salarial. Mas para isso, tive que me mudar da minha cidade, João Pessoa. Foi uma decisão difícil, mas importante para quem valoriza o preço do seu trabalho”, contou.

Núbia Lima se diz apaixonada pela profissão e garante que trabalhar em meio aos livros é um tesouro. “A literatura e a comunicação sempre fizeram parte da minha vida, e foi por esse motivo que escolhi cursar biblioteconomia. Estou muito satisfeita com a profissão que elegi e com a oportunidade valiosa que tenho nas mãos: ser responsável em preservar e ao mesmo tempo repassar informação e cultura para as pessoas”, afirma.

Saiba mais

SOBRE O CURSO - O bacharelado em Biblioteconomia da UFPB oferece 90 vagas anuais. O curso pode ser concluído em, no mínimo, dez períodos, ou seja, cinco anos. Os alunos estudam desde fundamentos teóricos da ciência da informação, passando pela sua organização e tratamento, até métodos de utilização da tecnologia da informação e pesquisa.

O QUE FAZ UM BIBLIOTECÁRIO? - O bibliotecário deverá ser capaz de planejar, organizar e administrar unidades de informação, acervos de livros, documentos ou fotografias, independente do formato que estejam. O profissional trabalha atendendo às necessidades de informação da sociedade, e atualmente deve estar antenado nas inovações tecnológicas, como as bibliotecas virtuais.

ONDE ATUA? - Pode atuar em bibliotecas ou quaisquer centros de documentação, arquivo e memória de empresas e instituições públicas e privadas.

QUAL O PERFIL DO ESTUDANTE? -O estudante de biblioteconomia deve ser comunicativo e se interessar por pesquisa e organização, além de gostar de ler e possuir conhecimentos em informática.

QUAL O SALÁRIO INICIAL? - De R$ 1,2 mil a R$ 1,7 mil por quarenta horas semanais.

Trabalho ainda é desconhecido

Os alunos do terceiro período de biblioteconomia João Paulo Gomes da Silva, de 26 anos, e Ana Vírgínia Chaves de Melo, de 45, relatam entusiasmados as primeiras impressões do curso. “Estou animadíssimo e gostando bastante de todas as matérias estudadas. O que noto é que a maioria das pessoas não conhece a vastidão do trabalho do bibliotecário. Mas vejo o futuro com positividade e tenho certeza que isso vai se reverter”, disse João Paulo.

A estudante Ana Virgínia ingressou no curso de forma diferente. Ela já era graduada em psicologia, mas por já possuir interesse no universo dos livros e dados, decidiu fazer mestrado em ciências da informação. Assim, decidiu entrar de cabeça na biblioteconomia.

“Foi uma escolha emocional. Essa é uma área que sempre me interessei e hoje tenho certeza que a biblioteconomia é mais que uma paixão, é um conhecimento indispensável”.

Ana Virgínia conta que as pessoas têm uma visão equivocada do trabalho do bibliotecário. “A maior parte da população pensa que o bibliotecário é apenas a pessoa que fica atrás do balcão. Mas nós somos também um educador, um pesquisador. Onde houver um registro de informação, o profissional pode atuar. E informação é consumo, é um bem. Aí está o valor escondido da nossa profissão”, afirmou.

Os estudantes contam que as novas tecnologias não atrapalham o trabalho do bibliotecário.

Pelo contrário, elas só vêm a somar. “É natural do ser humano apregoar a extinção de alguma coisa quando algo novo aparece, como aconteceu na evolução dos jornais impressos para o rádio, para a televisão Ed posteriormente com a internet. A realidade é que no fim das contas nenhum dos formatos acabou por causa da ascensão de outras. O que vai acontecer é que os bibliotecários vão se adaptar com as novas tecnologias para usufruir delas de forma eficaz”, explicou Ana Virgínia.
 

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